06 janeiro 2011



Quer um doce?, ele sugeriu.
Ela perguntou se ele tinha doce no bolso.
Respondeu rindo que não mas prepararia o de sua preferência. Assim, um suborno.
Ela esboçou um sorriso de assentimento. Nalguns dias do mês o corpo feminino pede mais da droga do bem-estar. Certas fontes porém não valem a pena.
Quais fontes? Ele queria saber se estava na lista, desejando e receando saber.
A lista: atividade física extra, dry martini, marijuana e doce barato _ se tem de engordar deve ser com um doce fabuloso. Um luxo que de ordinário só dá a si mesma por presente de aniversário. Pelo resto do ano evita passar diante da vitrina da confeitaria, onde a sedutora iguaria faz plantão, encimada pelo slogan "Uma bomba para as mulheres gulosas".
Então a última vez em que comeu seu doce preferido foi em outubro? Ela não disse o mês mas ele apostava os dois polegares em que é libriana.
Confirmou, chamando-o de bruxo, e contando que umas vezes se ufana do equilíbrio característico ao signo, noutras se afigura uma maldição depender de tantos pesos e medidas para determinar o sentido de todas as coisas orbitantes do seu universo. Por essa vez concordaria em interromper a abstinência sacarífera. Só por essa vez.
A despensa dela continha os ingredientes necessários, ele se lançou ao preparo do pão-de-ló assado em camada fina sobre papel-manteiga, do cilindro de chocolate meio amargo, da mousse, do creme.
Uma fina esfera de pão-de-ló encaixada por fundo no cilindro de chocolate, uma camada de mousse, uma camada de geléia vermelha com pedaços de cereja, cobertura de creme. Enfeitou com folhas de hortelã, guarneceu com uma plaquinha de caramelo e polvilhou tudo com chocolate em pó, como uma chuva. Debaixo de provocações por causa da sua pronúncia.
Ora, diga "chocolate". Já é brasileiro ou não, afinal de contas?
Então sua língua forçava: Chocolata.
Ela: Chocola-te.
E ele: Pó de cacau. Vai comer ou não, afinal de contas?
Ela estava com pena de cortar, quebrar com o garfo ou os dentes. Não sei se choro de prazer ou choro de tristeza, oscilou debruçada sobre o prato.
Já ele foi decidido, melou com uma pequena lágrima de creme a face dela e lambeu.
Ela se esquivou, levando o doce para o outro lado da mesa, sentando-se lá e finalmente estragando o arranjo com bocarra e bagunça. Disse em meio à mastigação que se fossem casados ele a estragaria, e a dança não poderia dar conta do seu peso.
Já ele seria o mais absolutamente feliz marido de mulher gorda.

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