06 janeiro 2011



Na agenda mental anotou: "Censurar sonhos".
Ou talvez não. Quem sabe. Já saturam-na essas auto fiscalizações. Talvez melhor seja mesmo viver e deixar viver. Deixar rolar. Clarice Lispector comentou que a pessoa pode se empenhar em empurrar uma criança de volta à infância e ter aparente sucesso nessa empreitada, mas tão logo desviar a vista, no tempo de um piscar, a criança retornar ao desvio, ao atalho para a vida adulta. No conto a mulher-guia encontra estendido no assoalho da cozinha o corpo do pintinho que se pretendera ter como ponte de retorno à infância. A menina o matara, rejeitando a distração, pois já que a aridez chegaria, chegasse de uma vez. "A Legião Estrangeira", o conto, para se entender assim ou de outra maneira.
A gente acaba descobrindo pouca utilidade em torcer o pescoço do primeiro bichinho de estimação; se dá para usar essa palavra, utilidade; não liquida a questão, o lúdico segue para muito além da infância. É preciso prosseguir largando no piso da cozinha muitos pintinhos mortos. Ou, pelo contrário, a cada um que aparecer acolher entre mãos de leves afagos, dar a ração adequada, providenciar acomodação em chão menos frio. Cabe à gente a escolha de se entregar à cócega das bolhinhas perfumosas de um espumante ou estilhaçar contra uma rocha a bojuda elegância da garrafa.
A lembrança da eternidade dessa escolha cansou-a ao cúmulo, foi a gota d'água desse dia que trocava de turno com a noite. Foi tomar banho morno e em seguida se estendeu sem roupa debaixo do edredom de cor neutra. Todas as lâmpadas apagadas. Vidraças cerradas. Silenciado até o mar, adormeceu desse cansaço espiritual.
Tanto que teve trégua de sonhos.

2 comentários:

  1. Olá! Muito linda a ilustração, com traço cheio de personalidade. E o texto sobre a querida Clarice, lindolindolindo ♥.

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    1. Obrigada, Eliza!
      Eu queria mesmo é ter a sua classe.

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